quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Porque pastores se matam?


“Solto a voz nas estradas, Já não quero parar
Meu caminho é de Pedra, Como posso Sonhar ?
Sonho feito de brisa, Vento vem terminar
Vou fechar o meu pranto, Vou querer me matar…”

(Milton Nascimento/Fernando Brant)

Já tem um monte de gente perguntando, debatendo e conversando a respeito, mas essa manhã, lidando com minha agenda pastoral e suas infindáveis,  enormes demandas bio-psiquicas-espirituais, a pergunta retornou . E não fugi da mesma. Encarei.

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Porque pastores se matam?

Pastores se matam porque pensam que são Deus.

Podem resolver tudo. Quando acordam desse desvario, quando a fatura chega , não tem  tem como bancar. Já brinquei de (ser) Deus. Brinco mais não. Sai fora! Literalmente, não tem graça !

Pastores se matam porque são pessoas boas.

Só pessoas boas ficam deprimidas. Pastores-lobos ficam cínicos. São discípulos de Hofni e Finéias. Usam as pessoas. Gente se deprime. Psicopatas, empatia zero, deprimem e destroem os outros.

Pastores se matam quando vestem máscaras de santidade.

Não brigam com a mulher. Tem filhos perfeitos. Nunca pecam.  Oram muitas horas por dia. Retornam, respondem no mesmo dia  um número infindável de ligações e esvaziam sua caixa de entrada de e-mails antes das 18h. Ah, jamais deixam acontecer o absurdo de uma mensagem de whatsapp ficar mais de 1h sem resposta. Imagina!

Pastores se matam porque não conseguem dizer não.

O que vão dizer deles? Estão ali para servir. São pagos para atender a todos o tempo todo. “Ovelha é um bicho carente, não sabe se cuidar“, eles argumentam. E vai que se engracem  para outro rebanho, outro redil? “Pastor tem que ter cheiro de ovelha”. E quem disse que o cheiro é bom? Onde já se viu feridas purulentas do pecado cheirarem a alfazema?

Pastores se matam porque querem concorrer com o consumismo religioso.

Pregam o Evangelho, enquanto os outros, os lobos, pregam autoajuda espiritualizada. Proclamam as Escrituras enquanto os lobos vendem prosperidade. É uma luta desleal. Lutar ingenuamente essa luta é uma máquina de moer carne.

Pastores se matam porque não podem trocar de carro sem ouvir piadinhas egoístas.

Se compram casa - em geral, financiada a perder de vista , “estão enriquecendo mesmo à custa das pobres ovelhas”. Ouvi uma vez : “Você chegou em São Paulo com uma mão na frente e outra atrás!” O que dizer? Um frase de tamanha mesquinharia merece réplica? Tô com preguiça… Sério.

Pastores se matam porque não cuidam do corpo, não brincam.

Devem dormir de paletó, não é possível. “Nosso descanso não é nesse mundo“, escutei de um deles. Querem ser maiores que o seu Senhor, contrariando a admoestação bíblica. Jesus dormiu , cochilou de cansado. Se bobear, pastores não dormem nem à noite…

Pastores se matam de raiva, de tristeza, de crise vocacional…

Mas também de frustração, de pobreza, de baixa autoestima,  de falta de sexo,  de decepção, de abandono, de tanto trabalhar, de falta de férias decentes, de cobranças injustas, de tanto se cobrar por saberem tudo , serem bons em tudo - pregar bem, visitar como um psicólogo ou médico da família , administrar como um CEO, pensar como um filósofo, ensinar como um PhD, ser pai como um guru familiar. Já pensou ? Um profissional assim (sem falar que não podem ser profissionais - até porque não podem cobrar como um) merece que salário?  Pastores se matam aos poucos. E aos montes. Quietos no seu abandono, na sua tristeza de não ser que os outros acham que são - santos impecáveis.

Pastores se matam porque adoecem.

Como qualquer outro ser humano - que, se não se tratar, entra em colapso . Stress é o "pecado que jaz à porta" do pastor. Pecados sexuais idem. Orgulho então... O pastor, como os profissionais da saúde, os policiais e outras carreiras de risco, deveriam ser cuidados e não apenas cuidar. Quem cuida de quem cuida, como pergunta uma amiga terapeuta, Roseli Kunhrich? Quem cuida do seu pastor?

Pastores se matam porque passam a ler a Bíblia só para fazer sermões…

Porque desconhecem o Ócio Santo e Criativo, por que não ouvem música, não namoram, não dançam , depois de um "vinho com a mulher da sua mocidade" (Pv 5.18). Nem lêem João Crisóstomo, Richard Baxter, Eugene Peterson, Osmar Ludovico, Ricardo Barbosa, verdadeiros pastores de pastores !

Sou pastor. Não vou me matar. Não posso morrer pelos pecados dos outros. Jesus já fez isso. Aliás, o Pastor mesmo é Ele. O Bom Pastor. Eu? No máximo, como diria Fernando Pessoa, sou “um guardador de rebanhos”. Pecador. Isso só e olhe lá.  Se você é um pastor de verdade , "companheiro dos outros no sofrimento" (Ap 1.8), fique esperto. Não se mate por nada. Nem por tudo. Morrer por Jesus é uma coisa bem diferente do que se matar pelo rebanho. Ou por  ambições neuróticas e messiânicas.

por Gerson Borges

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