sábado, 26 de fevereiro de 2011

Responsabilidade

Escrito por Octavio Caruso 

Dia 22 (Terça) entrará no ar minha crítica do filme “Bruna Surfistinha” e desde que soube que tal projeto estava em andamento, emiti minha opinião. Decido voltar ao assunto, avisando que não assisti ao filme, portanto baseio-me apenas no trailer já divulgado e nas estratégias de marketing do estúdio.

Entre os que defendem este projeto, o argumento mais utilizado é compará-lo a obras como “Uma Linda Mulher” ou “Christiane F.”, afirmando que somente aceitamos as histórias sobre prostitutas de fora do país.  Não é a profissão da Bruna que está em discussão, mas sim o possível erro (que se nota nos trailers) em celebrar a vida de uma pessoa inócua. Ela poderia ser uma médica, mas este fator não seria o suficiente para que um filme sobre sua vida fosse interessante. Um filme sobre uma médica que escreve sobre seus pacientes não seria atrativo cinematograficamente, tampouco levaria um massivo público às salas de cinema.

O que ocorre é uma inversão de valores éticos que se reflete em todas as mídias e no comportamento dos jovens deste país. Os "heróis" são os participantes de reality show, as prostitutas são guerreiras batalhadoras e os professores e policiais são escória e ganham mal. O que podemos esperar de um panorama deste? Existe um público imenso sedento por celebridades instantâneas, tanto que estão preparando um filme sobre a Geyse Arruda e um sobre a criadora da grife "Daspú". Enquanto isto, os cineastas estrangeiros celebram seus heróis (vide o recente "127 Horas"). Mas vocês podem ter certeza que se o filme for bom, com um bom roteiro bem trabalhado e boas atuações, farei questão de vir aqui elogiar!

O filme "Taxi Driver" fala sobre um motorista de táxi que, inconformado com sua vida frustrante, decide promover uma chacina e proteger uma jovem prostituta. Se formos buscar todos os roteiros de cinema e peças de teatro já encenadas, iremos achar que muitos são calcados em péssimos exemplos. Porém existe um elemento essencial neles: ficção! Assim como os contos da carochinha e fábulas infantis. Agora pegue como exemplo "Christiane F.". A história é real! Mas analise o filme e perceba se ele CELEBRA a jovem ou se ele a usa como exemplo dos malefícios da vida que ela escolheu para si mesma.  Ninguém vai sair de uma sessão de "Christiane F." afirmando que ela era uma guerreira batalhadora, já com os trailers e a atitude dos realizadores de "Bruna Surfistinha", sinto uma inclinação criminosa ao ato de CELEBRAR esta jovem de classe média alta, que decidiu se tornar prostituta e acabou fazendo filmes pornográficos. Nem mesmo o livro no qual é baseado o filme foi escrito por ela! Os méritos são do jornalista Jorge Tarquini, que coletou os seus depoimentos e reuniu numa narrativa atraente.

Muitos podem me ter como careta ou politicamente correto, mas acredito sinceramente que deve haver responsabilidade por parte das mídias que alcançam o grande público. O que vejo pesquisando pela internet é que existe um número imenso de jovens que vêem a Bruna como um exemplo de vida! Ela deve ter mil qualidades, não digo que não se pode fazer filmes sobre ela por ser um mau exemplo.  Todas as histórias podem ser contadas, porém acho que algumas não devem ser contadas. Questão de responsabilidade! Se vivêssemos na Dinamarca ou na Suécia, onde o analfabetismo científico é baixo, as religiões representam uma ínfima estatística e os jovens sabem escrever e interpretar textos, nem estaria preocupado. Porém vivemos em um dos países mais carentes de cultura, onde o analfabetismo funcional atinge todas as classes sociais, onde a Tati Quebra Barraco é um sinônimo de cultura para exportação, Tiririca é o político com maior número de votos e onde o prefeito ainda pede ao cacique que reze para que chova! A questão que abordo é complexa, não apenas uma opinião a favor ou contra o filme.

Alguns podem achar válido um filme sobre uma pessoa por trás de dois livros que foram Best Sellers, porém surpreso eu ficaria se livros sobre ciência ou política fossem os mais vendidos neste país! Sexo sempre vendeu muito (vide o período triste da pornochanchada) e afirmo sem medo de errar, que 99% dos homens que anseiam por este filme, esperam ver a Deborah Secco pelada em cenas picantes. Mesmo que eles possam hipocritamente afirmar que vão para elocubrar a respeito da luta contra o preconceito ou se mostrem felizes por haver um filme sobre os marginalizados. Não há nada de racional acerca do desejo em assistir este filme.

Os que concordam comigo podem acreditar que visualizo um futuro utópico, porém digo que é um futuro possível. Recebemos lixo porque damos valor ao lixo! Os americanos possuem mil defeitos, mas em uma coisa tenho que "dar o braço a torcer", eles são patrióticos! Eles poderiam até conceber um filme sobre uma ex-prostituta real que tivesse largado sua profissão e ganhado um Nobel ou coisa do tipo, mas duvido muito que os produtores aceitariam contar a história real de uma ex-prostituta que até ontem estava marcando presença no “Superpop”, tendo ela escrito livros ou não.

Não falo por preconceito ou moralismo, mas sim por estar preocupado com os rumos desta sociedade. Cultura hoje está disponível para todos que quiserem! Tanto o cidadão que mora no condomínio de luxo quanto o que vive na favela pode baixar em cinco segundos três livros do Dostoiévski ou duas músicas do Justin Bieber. Tudo é questão de escolha e deve partir de nós! Não existe mais desculpa para a ignorância. Com este pensamento eu modifico meus familiares e alguns amigos, você fazendo o mesmo modificará os seus e em curto espaço de tempo se modifica um país! Precisamos celebrar as boas atitudes e os bons caráteres. Mais Nietzsche e Carl Sagan e menos Mulheres Fruta e BBB.

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